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JORNAL DO COMÉRCIO
CULTIVO DE ALFACE, FÁBRICA DE SUCOS E RESTAURANTE EXIGEM INVESTIMENTO DE R$ 5 MIL A R$ 1,2 MILHÃO
ORGÂNICOS GANHAM ADEPTOS
Enquanto a agricultura e a pecuária de alguns países da União Européia produzem até 15% de orgânicos, o agronegócio brasileiro ainda não chega a produzir nem 1% de produtos livres de agrotóxicos ou outro tipo de química. No entanto, consultores afirmam que o futuro está nesse tipo de produção e o Brasil, por sua vez, tem grande potencial para evoluir no mercado. No Rio de Janeiro, em São Paulo e na Região Sul estão concentrados os maiores agricultores desses alimentos. O investimento em uma produção orgânica, como plantação de alface e fábrica de sucos vai de R$ 5 mil a R$1,2 milhão. A produção orgânica obedece a normas rígidas de certificação que exigem, além de não utilização de agrotóxicos e drogas venenosas, cuidados elementares com a conservação e a preservação de recursos naturais e condições adequadas de trabalho.
Um produto orgânico é mais que um produto sem agrotóxicos e aditivos químicos.É o resultado de um sistema de produção agrícola que busca manejar de forma equilibrada o solo e demais recursos naturais (água, plantas, animais, insetos, etc.), conservando-os a longo prazo e mantendo a harmonia desses elementos entre si e com os seres humanos. No mercado, o grande diferencial em relação ao produto convencional é o selo de identificação do produto orgânico, que no Brasil e na América do Sul é fornecido pelo Instituto Biodinâmico (IBD), com sede em Botucatu, interior de São Paulo. Os procedimentos de certificação do IBD envolvem o processo de conversão da propriedade, isto é, o solo poluído é transformado em uma área orgânica produtiva no período de 2 a 3 anos.
PROCESSO DE CERTIFICAÇÃO É ACOMPANHADO POR TÉCNICOS
Todo o processo é acompanhado pelos técnicos do IBD que inspecionam o local regularmente e orientam todas as etapas da produção, contribuindo com a recuperação, conservação e preservação do meio ambiente e com o desenvolvimento das relações de trabalho, incentivando o comprometimento social dos projetos certificados. “É preciso respeitar aptidão e vocação da área produtiva. Isto é, plantar milho em locais onde realmente o produto pode ser plantado e usar tecnologias limpas. Sementes transgênicas, geneticamente modificadas, são proibidas”, alerta o consultor Fábio Ramos, sócio-diretor da Agrosuisse, que há 20 anos presta consultoria para agricultura orgânica.
Há dois anos, José Ricardo Negreiros da Silva transformou o sítio que utilizava apenas para o lazer, em Itaipava, Região Serrana do Rio, numa área produtiva de folhas orgânicas. Nesse caso, a grande vantagem foi investir numa terra onde nunca houve plantio – longe de qualquer tipo de química.“Como a terra do meu sítio nunca tinha recebido qualquer tipo de química, a certificação foi rápida. O tempo mínimo para uma área convencional receber qualquer certificação orgânica é de 2 anos”, explica Silva, proprietário do Sítio Paraíso Orgânico. Por ter iniciado o plantio de folhas com o solo livre de química, o produtor recebeu depois de quatro meses a certificação da Associação dos Produtores Biológicos do Estado do Rio de Janeiro (Abio).
Mesmo quando a terra atinge um estágio em que não há mais impurezas, é preciso usar esterco, um dos adubos mais utilizados na agricultura orgânica para manter a terra forte para o cultivo. O produto precisa ficar 60 dias empilhado antes de ser utilizado nos canteiros e é um insumo que será utilizado sempre na produção. A Alface foi um dos alimentos escolhidos para o cultivo do Paraíso Orgânico. Silva explica que o produto é um dos que requer menor investimento e que traz o retorno mais rápido, porém, há perda alta do produto final. Com R$ 5 mil, já incluído o sistema de irrigação, é possível começar o cultivo. Produtores sugerem que uma mesma área seja preparada para cultivar vários alimentos e que deve ser evitada a produção do mesmo produto em grande escala, já que interfere na qualidade, além de aumentar a perda.
O empresário Charles Rossi apostou mais alto no mundo dos orgânicos e desde que inaugurou a sua fábrica de sucos, em 2003, o negócio não para de crescer. Depois de pesquisar o mercado para saber a aceitação do produto, o empresário lançou duas linhas de sucos e energéticos à base de frutas, verduras e legumes orgânicos. “Não tenho concorrente nesse segmento e hoje, além do Rio, já comercializo o produto para São Paulo, Minas Gerais, Brasília e Sul do País”,comemora o dono da Betamix, que tem a capacidade de produzir até 30 mil caixas com 12 garrafas de 300 mililitros mensais.
Mas para que os sucos chegassem ao público-alvo, o empreendedor precisou investir alto no marketing: cerca de R$ 3 milhões, segundo ele, foram destinados para divulgação. A mercadoria é vendida em lojas de produtos naturais, de conveniências e supermercados premium, como a rede Zona Sul. “Dois anos atrás, quando começamos a estudar o mercado de orgânicos, percebemos que havia forte tendência de consumidores que estavam deixando de consumir os produtos convencionais. A nossa base foi uma pesquisa do Instituto Biodinâmico, responsável por liberar a certificação de orgânicos no Brasil”, explica Rossi. Mesmo assim, alerta o empreendedor, é importante saber que esse consumidor ainda está em fase de formação. No Início do negócio, o produtor produzia a própria fruta orgânica, mas com a experiência percebeu que era melhor se concentrar na produção. “Hoje compro as polpas diretamente de fornecedores que se concentram principalmente em São Paulo e no Sul”, revela.
Depois de mais de 20 anos no mundo agitado da publicidade, Roberto Cardim trocou a criação de anúncios pela produção de brotos de trigo, conhecido como clorofila. Após tomar cortisona para tentar curar uma inflamação do intestino, o empreendedor foi apresentado ao produto natural por um amigo. “Em seguida, pesquisei as substâncias da clorofila e descobri que é rica em enzimas, proteínas e minerais, além de melhorar a oxigenação de todos os órgãos”, conta. Em 2003, o publicitário criou a marca Natural da Bocaina, nome do sítio onde funciona a plantação e a produção de sucos. “O negócio é simples. Compradas no Sul do País, as sementes após 15 dias de cultivo já podem ser colhidas, seguindo diretamente para a linha de produção onde, já com clorofila, será espremida e transformada em suco”, explica o empresário.
Na produção de molho de tomate, o equipamento é o que encarece a viabilidade do negócio, levando quase um terço do capital, que é de R$ 350 mil. O tomate recomendado é do tipo italiano por causa da qualidade e do rendimento industrial. “É um produto artesanal e tem a qualidade do molho feito em casa. Nós nos unimos a uma cooperativa para poder comercializar o produto,” explica Osvaldo Serrano Júnior, sócio do sítio Fruto do Sol, em Borborema, interior de São Paulo. Praticamente com o mesmo equipamento usado na produção de molho de tomate, é possível produzir geléia em compota. Goiabada, laranja e maracujá são as frutas mais fáceis para esse tipo de produção.
RESTAURANTES UNE OS DOIS MUNDOS
Em janeiro, o chef de cozinha Roberto Legrand comprou o restaurante Lowcal Organic, na Rua Dias Ferreira, no Leblon, Zona Sul carioca. O cozinheiro diz que no início só trabalhava com alimentos naturais, mas percebeu logo que havia uma forte concorrência na mesma rua que já tinha conquistado o público-alvo. Mesmo assim, ele continuou com a proposta de trabalhar com alimentos orgânicos por acreditar que no futuro pode conquistar uma parcela maior de pessoas. Porém, hoje, o empresário serve, principalmente no horário de almoço, saladas orgânicas e outros pratos variados em sistema de bufê.
“O produto orgânico ainda é muito caro, por isso, para que o negócio se tornasse viável precisei tirar alguns alimentos, como a alfafa, que quase não tem saída. Também abri mão do bufê no jantar”, lamenta Legrand. O empresário afirma que é preciso comprar os produtos diariamente de vários produtores da Região Serrana devido ao alimento ser demasiadamente perecível. Para o empresário, o nicho ainda é restrito porque alguns clientes – em sua maioria, de classe A – ainda tem certo preconceito em relação aos orgânicos. Nunca havia trabalhado com orgânicos e aos poucos estou aprendendo a gerenciar esse tipo de restaurante”, finaliza.
MAIOR FEIRA DO SETOR ACONTECE EM OUTUBRO
A BioFach, promovida pelo Planeta Orgânico, é a principal feira de negócios e conferência internacional de produtos orgânicos na América Latina. De 25 a 27 de outubro acontecerá a 4ª edição do evento, que este ano será no Transamérica Expo Center, em São Paulo. Já foram confirmadas a participação de países como Alemanha, Itália, Argentina, Bolívia, além de expositores da Holanda , França e Estados Unidos.
A última edição da BioFach América Latina/ ExpoSustentat levou 196 expositores de nove países a participarem da feira, que teve público de negócios (produtores, comerciantes, varejistas, atacadistas, empresas de comércio exterior e representantes de governo) de mais de 4 mil visitantes de 29 países. Na edição de 2006 a expectativa é de 8 mil visitantes.
De 21 a 23 de setembro de 2006, será realizada a BioFach Japan e de 5 a 7 de outubro de 2006, a BioFach Estados Unidos. Novamente a BioFach América Latina/ExpoSustentat serão promovidos com destaque nestes dois eventos internacionais. O Brasil será expositor nos dois eventos novamente.
RAIO X
RESTAURANTE
Investimento inicial: R$ 400 mil (com o ponto)
Faturamento médio mensal: R$ 70 mil
Margem de lucro: 20%
Retorno do investimento: 124 meses
Número de funcionários: 18
Área mínima: 150 metros quadrados
Risco: é considerado alto porque o tempo de retorno é elevado, além de ser preciso formar um público para esse tipo de restaurante.
CULTIVO DE ALFACE
Investimento inicial: R$ 5 mil, com o sistema de irrigação
Faturamento médio mensal: R$ 3 mil
Margem de lucro: 50%
Retorno do investimento: 3 meses
Capital de Giro: R$ 3 mil
Número de Funcionários: 2
Área mínima: 10 mil metros quadrados
Riscos: o capital inicial e o próprio formato do negócio, que já deve começar no mercado com uma parceria comercial, fazem a produção ser de baixo risco.
FÁBRICA DE SUCOS
Investimento inicial: R$ 1,2 milhão
Faturamento médio mensal: R$ 600 mil, com capacidade de produção total
Margem de lucro: entre 15% e 18%
Retorno do investimento: 18 meses
Número de funcionários: 30
Área mínima: 600 metros quadrados
Riscos: o aporte é muito elevado e provavelmente a validade do produto é curta, além disso é preciso focar na classe alta para conquistar um público fiel. Segundo Thais Helena, esse empreendimento pode ter sucesso com o mercado internacional, que tem maior demanda do que o Brasil, que repleto de casa de sucos.
FABRICAÇÃO DE EXTRATO DE TOMATE
Investimento inicial: R$ 350 mil
Faturamento médio mensal: R$ 22 mil
Margem de lucro: 20%
Retorno do investimento: 6 meses
Capital de giro: R$ 3 mil
Número de Funcionários: 6
Área mínima: 300 metros quadrados
Risco: o investimento inicial gera um risco alto. Além disso, o molho de tomate é um produto que já está consolidado no mercado. Por isso, é difícil concorrer com as grandes empresas.
FÁBRICA DE GELÉIA EM COMPOTA
Investimento inicial: R$ 40 mil
Faturamento médio mensal: R$ 6 mil
Margem de lucro: 20%
Retorno do investimento: 12 meses
Capital de giro: R$ 3 mil
Número de funcionários: 6
Área mínima: 90 metros quadrados
Risco: esse produto tem mais apelo diante do mercado consumidor, que gosta de escolher os sabores. Com isso e com o aporte pouco elevado, o risco é considerado baixo.
PRODUÇÃO DE SUCO DE CLOROFILA
Investimento inicial: R$ 10 mil
Faturamento médio mensal: não divulga
Margem de lucro: 30%
Retorno do investimento: 5 anos
Número de funcionários: 2 a 10
Área mínima: 10 mil metros quadrados
Risco: é considerado médio, porque vai depender da quantidade de funcionários que serão usados na produção. Se o trabalho exigir 10 funcionários, será necessário um capital de giro elevado.
Fonte do risco: Thais Helena de Lima Nunes, professora da PUC-Rio
Serviço
Betamix, www.betamix.com.br
Fábio Ramos, www.agrosuisse.com.br
Fruto do Sol, 0xx-16-3266-2535
Instituto Biodinâmica, www.ibd.com.br
Natural da Bocaina, www.naturaldabocaina.com.br
Paraíso Orgânico: 0xx-21-3643-6454 |